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Pomba Branca

  |   Judaísmo, Português

“Pomba branca, pomba branca/ Já perdi o teu voar/ Naquela terra distante/ Toda coberta p’lo mar…”

 

Estes são os primeiros versos de um poema escrito pelo poeta português Vasco de Lima Couto (1923, Porto – 1980, Lisboa). No início dos anos 70, Vasco de Lima Couto viajou pela África e se apaixonou por Angola, onde ficou três anos (1972, até Janeiro de 1974). Em 1973, escreveu “Pomba Branca”, cantado pela fadista Beatriz Da Conceição (1973), mas que se tornou famoso pelo fadista do Funchal, “Max” (Maximiano de Sousa, 1974).

Este fado soa como um Piyyut – um poema judaico – usando os motivos principais de uma história na Torá: uma pomba branca (Génesis 8:8-11) e uma terra coberta pelo mar (7:19), um vento que traz bonança (8:1), um barco grande (6:14), e crianças e amor (9:7). Tudo isto está na parashá da Torá desta semana: “Parashat Noah”. Porém, como sempre, as coisas que as pessoas não falam podem ser a mensagem mais importante. O poema não menciona o versículo 9:6: “Aquele que derrama o sangue do homem, pelo homem, seu sangue será derramado, pois à imagem de Deus fez o homem.” E também não menciona 9:25: “Maldito seja Canaã; servo de servos será para seus irmãos.” Mas este verso, “a Maldição de Cam”, desempenhou um papel trágico na época do colonialismo e o poema “Pomba Branca”, mesmo se não o menciona, fala exactamente sobre isso.

Infelizmente, o comentarista medieval Abravanel desempenhou um fraco papel neste aspecto – de maneira que o seu comentário, bem baseado em fontes mais antigas, poderia ser entendido como uma legitimação religiosa a alguma coisa má. Mostra como devemos ser cuidadosos com as nossas interpretações!! Os três filhos de Noé (Gen 9: 18-19) foram distribuídos pelos três continentes conhecidos no tempo antigo. Pode ser visto no famoso mapa do mundo de H. Schedel (1493), que foi feito com base em fontes filosóficas gregas e romanas (como Séneca e Plínius) [ver imagem abaixo]. Os “semitas” (no canto superior direito do mapa) pertenciam à terra de Israel (sendo o seu continente a Ásia); os gregos identificam-se eles mesmos com o irmão Jafé (no canto superior esquerdo), e o vilão, Cam, que foi amaldiçoado como escravo para sempre, foi identificado com o resto do mundo, desconhecido para os gregos (igualmente desconhecido no mapa de Schedel, onde figura apenas a costa do Norte de África). Assim, no início desta interpretação, em que aos três filhos de Noé Deus ordenou “multiplicai-vos e enchei a terra” (Génesis 9:1), ninguém poderia sentir-se ofendido (ou pelo menos não muito).

 

1 Hartmann Schedel, Liber chronicarum, Nuernberg, 1493

1 Hartmann Schedel, Liber chronicarum, Nuernberg, 1493

 

Mas no tempo de Abravanel a África, sim, foi conhecida! Abravanel explica sobre o país de Cam: “Muitos navios saem do reino de Portugal, que está no extremo Oeste, para a terra de Cuxe (o filho mais velho de Cam, Gen 10:6) e passam abaixo do Equador e eles encontraram ali assentamento humano e uma terra de leite e mel.” Agora, é um curto caminho para concluir: Cam, pai de Canaã, o amaldiçoado de Cuxe, é a África; então, pessoas de pele preta são amaldiçoadas para serem escravos de Sem e Jafé, de acordo com Gen 9:25 (seguindo esta interpretação).

E agora temos a ligação entre Noé e a pomba branca… a pomba branca de Vasco de Lima Couto escrevendo em Angola, e Maximiano de Sousa, oriundo da Madeira. “Pomba branca, pomba branca” é um poema sobre os países colonizados pelos Portugueses. Não se previa fim do dilúvio e da destruição. “Já perdi o teu voar, pomba branca, naquela terra distante, ainda toda coberta pelo mar”, ainda em estado de destruição, exploração, violência. Ainda hoje em dia, largar uma pomba branca é sinal de esperança.

A poema de Vasco de Lima Couto – fado da Beatriz e de Max – tem duas estrofes. Na primeira, “Fui criança…”, não há movimento! Tudo não passa de um sonho de uma criança descalça na terra, sonhando nas noites – noite escura, não branca! – com barcos trazendo roupas felizes de outros países. A chegada de outras gentes está descrita como sendo um sonho, não tem movimento real, como durante o dilúvio, quando o mundo parou. Mas na segunda estrofe há muita acção do poeta, acção na realidade: perder-se, andar por ruas de outras cidades, cantar o amor ao vento e sentir saudades. A primeira estrofe terminou com a palavra “chegar”, a última com a palavra “partida”. “Chegar” é um sonho, uma visão; “partir” é a realidade.

Noé enviou duas pombas – a Torá não diz que elas eram brancas. Noé soltou um corvo (um animal preto, por sinal), mas este voou para trás e para diante. Depois, soltou uma pomba para ver se as águas tinham diminuído na superfície da terra. Mas a pomba não encontrou lugar onde pousar os pés porque as águas ainda cobriam toda a superfície da terra e, por isso, voltou para a arca. Noé estendeu a mão, apanhou a pomba e trouxe-a de volta para dentro da arca (Génesis 8:7-9). Só a segunda pomba tinha um pequeno sinal de frágil esperança. Noé esperou mais sete dias e soltou novamente uma pomba. Ao entardecer, quando a pomba voltou, trouxe uma folha nova de oliveira presa no bico. E assim Noé ficou a saber que as águas tinham diminuído sobre a terra. Esperou ainda outros sete dias e de novo soltou a pomba, mas desta vez ela não voltou (Génesis 8:10-12). Sabia que a folha de oliveira no bico da pomba era o verdadeiro símbolo da esperança, sendo a pomba apenas o mensageiro.

O poema de Vasco de Lima Couto nos ensina: A história do dilúvio ainda não acabou. Temos que cantar o nosso amor ao vento, temos que sentir saudades como uma segunda pomba, prova da vida, para um mundo melhor, o Tikkun Olam (aperfeiçoando o mundo).

 


Pomba branca, pomba branca/ Já perdi o teu voar/ Naquela terra distante/ Toda coberta p’lo mar/ Pomba branca, pomba branca/ Já perdi o teu voar/ Naquela terra distante/ Toda coberta p’lo mar

Fui criança e andei descalço/ Porque a terra me aquecia/ E eram longos os meus olhos/ Quando a noite adormecia/ Vinham barcos dos países/ E eu sorria a Deus, sonhei/ Traziam roupas, felizes/ As crianças dos países/ Nesses barcos a chegar

 

Pomba branca, pomba branca
… … …

Depois mais tarde ao perder-me/ Por ruas de outras cidades/ Cantei meu amor ao vento/ Porque sentia saudades/ Do primeiro amor da vida/ Desse instante a aproximar/ Dos campos, do meu lugar/ À chegada e à partida

 

Pomba branca, pomba branca/ Já perdi o teu voar/ Naquela terra distante/ Toda coberta p’lo mar
… … …

 

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Maximiano de Sousa "Max" (1974)
Beatriz Da Conceição (1973)
José Carreras
Paulo de Carvalho
Annette Boeckler

Dr.ª Annette Mirjam Böckler é professora de Liturgia Judaica e Bíblica na Universidade Leo Baeck, em Londres, onde é também Bibliotecária. Escritora e tradutora em matérias Judaicas (sendo a tradutora do Seder haTefillot – o primeiro livro de Orações liberal após o Shoah na Alemanha), tem desenvolvido a tradução da edição alemã dos comentários da Torah de W. Gunther Plaut.