O Shofar – Porquê?

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A raiz hebreia sh-f-r (שפר) significa “melhorar, reformar, recuperar”. Mas o substantivo, o shofar (שופר), quer dizer um chifre corroído de um bovídeo kosher, de preferência de um carneiro. Tradicionalmente, os sefarditas usam um chifre curto, os asquenazitas preferem um chifre mais longo e curvado.

O Shofar é um dos instrumentos musicais mais simples no mundo. Ainda não tem quaisquer buracos ou botões para alterar o tom como numa flauta ou trompete. O shofar só pode fazer um único som. E dependendo de quão forte se soprar nele, esse som poderia ser uma oitava mais alta ou mais baixa ou o quinto. E dependendo de quão longe se soprar, o som é mais breve ou mais longo. Mas isso é tudo. Não se pode tocar um concerto com este instrumento tão simples. Felizmente, ninguém espera isso, de qualquer forma.  Esse som tão alto e tão forte de repente interrompe tudo, tanto silêncio e ruído. É como um telefone móvel ou uma vuvuzela do tempo passado.

 

Mas o shofar chama quem?

A ideia mais jovem e não rabínica é que o shofar seria tocado para nós, os seres humanos. E, em geral, isso é a posição do Judaísmo Progressista. O som do shofar é um alarme para nos fazer voltar para a simplicidade da vida e para as perguntas mais básicas. Quem sou eu? Onde eu quero ir? Qual é a minha vida? Qual o meu amor verdadeiro? Quais são os meus objectivos? Talvez tenhamos que fazer um retorno (em hebreu: תשובה “teshuvá“). “Acordai, vós dormidos! E considerai as vossas obras! Lembrai-vos do vosso Criador! E retornai a Ele em arrependimento!” (Maimónides, Hilkhot Teshuvá 3:4)

Mas a resposta tradicional rabínica é diferente. O som do shofar não é para nós. É para Deus! Para que Deus se lembre do soluçar dos seres humanos. Que Deus se lembre como é curta esta nossa vida, e como é frágil… por isso Deus tem que nos tratar com grande misericórdia e cuidado. Por isso o shofar. Um alarme para Deus.

O Talmud conta: “Rabi Abbahu disse: Por que fazemos soar o shofar? – Porque Deus disse: Toca para mim um chifre de carneiro para que eu possa lembrar-me da ligação de Isaac, filho de Abraão, para o seu benefício, e eu o tomarei como se fossa a ligação de vós diante de mim. A Torá conta: ‘Abrahão levantou seus olhos e viu, e eis que um carneiro estava embaraçado numa árvore por seus chifres’ (Génesis 22:13). Isso nos ensina que Deus mostrou ao nosso pai Abraão como o carneiro se livra de um matagal e se enleia noutro. Deus disse a Abraão: Então são as tuas crianças destinadas a ser apanhadas em iniquidades e enredadas em desgraças, mas no final elas serão resgatadas pelos chifres de um carneiro.” [Rosh Hashanah 16a]

Segundo, ainda, outras opiniões, tocamos o shofar para dar o som da coroação de Deus, que proclamamos como Rei do mundo. De acordo com a liturgia de Rosh haShaná, o som do Shofar lembra a revelação de Deus no Sinai, quando Deus nos entregou a Torá ao som do Shofar. E outros dizem que o shofar é o som do tempo futuro messiânico, quando todos serão livres e perfeitos. A Mussaf – a Amidah complementar – de Rosh ha Shaná nos conta várias razões para o shofar. O som do shofar convida a estudar e a fazer interpretações. Nós temos que buscar a nossa interpretação para o nosso tempo e a nossa situação.

O que é mais importante? Ouvirmos o som do shofar? Ou Deus? Para muitos judeus o som do shofar é um dos momentos máximos de todo o ano judaico.

shofarQuando?

O shofar toca-se no mês do Elul, ao fim do cada serviço da manhã.

Toca-se especialmente no Ano Novo Judeu (“Rosh haShaná”). Esse dia na Bíblia chama-se mesmo Iom haTeru-á “Dia do ruído” (Num 29:1). Ouvimos o shofar imediatamente depois da leitura dos Profetas. Ouvimos seguidamente, por várias vezes, durante a reza especial do Rosh haShaná (“Mussaf”), a reza mais longa do ano. Algumas sinagogas progressistas que não têm um serviço de Mussaf, têm em vez disso uma longa cerimónia com o shofar depois do serviço da Torá. Tradicionalmente, tocam-se 100 sons a cada dia de Rosh haShaná. Os Asquenazitas não tocam o shofar no Shabat, pois pretendem seguir também o versículo bíblico que fala sobre um “memorial de toque de Shofar” (Leviticus 23:24). Porém, as sinagogas hispano-portuguesas tocam o shofar no Rosh haShaná independente de ser Shabat – e assim fazem os Progressistas.

Ouvimos o shofar uma última vez ao fim do Iom Kipur. (Apenas 5 dias depois se ouve um som completamente diferente, o som suave, frágil e silencioso de uma planta – tema desenvolvido no próximo artigo.)

 

Fontes de estudo

Torá: Êxodus 19:19; Leviticus 23:24; Leviticus 25:9; Números 29:1

Mishná: Tratado Rosh haShaná 3.

Maimónides: Mishné Torá, Hilkhot Teshuvá 3:4

 

Este Artigo continua > Quantos Sons Tem o Shofar?

 



Annette Boeckler
Dr.ª Annette Mirjam Böckler é professora de Liturgia Judaica e Bíblica na Universidade Leo Baeck, em Londres, onde é também Bibliotecária. Escritora e tradutora em matérias Judaicas (sendo a tradutora do Seder haTefillot - o primeiro livro de Orações liberal após o Shoah na Alemanha), tem desenvolvido a tradução da edição alemã dos comentários da Torah de W. Gunther Plaut.