Parashá da Semana | Korach פרשת קורח

  |   Institucional, Judaísmo, Português

Todas as semanas lemos uma porção da Torá. Ao final de um ano, completamos a sua leitura. A tradição judaica nos ensina que devemos ler a mesma porção da Torá no ano seguinte, repetidamente, semana após semana. Mas não se trata de um exercício de memorização. Esta experiência nos faz perceber que a Torá é capaz de se transformar a cada leitura, e que cada olhar é o primeiro.

Digo isso porque hoje tive uma sensação estranha, ao ler a parashá de Korach. Tive a impressão de lê-la pela primeira vez. Me surpreendi com a dureza de Deus, com a liderança de Moisés, no momento tenso e angustiante que o povo judeu atravessava no deserto.

Me valendo de uma palavra corriqueira destes últimos tempos, me arrisco a dizer que o povo de Israel e Moshé passavam por um período de crise. Era um tempo muito difícil. O povo estava no deserto, peregrinando debaixo do sol escaldante, vivendo como nómada, num cenário árido de enorme vulnerabilidade. Diante da insatisfação do povo, Moshé começa a ser colocado à prova. Na parashá anterior vimos o povo chorar desesperançosamente diante de notícias negativas trazidas por 10 espiões que foram enviados para observar a terra de Israel. Apenas dois espiões ofereceram outro testemunho, “terra que emana leite e mel”. O povo se apegou ao ponto de vista da maioria, queixando-se a Moshé, a ponto de dizer “Oxalá tivéssemos morrido na terra do Egipto”.

Ainda não superado de facto a insatisfação do povo, já surgia outro enorme problema. Korach, figura importante da congregação, se insurgia contra a liderança de Moshé “por que vos elevais sobre toda a congregação do Eterno? ” Com 250 pessoas ao seu entorno, Korach desafiava a representatividade de Moshé. Qual legitimidade teria Moshé para liderar o povo? Curioso que Moshé se perguntara disso a Deus quando convocado para retirar o povo da escravidão do Egito. Mas agora ele não questiona mais, tem segurança sobre seu papel. Moshé não confronta Korach pessoalmente, coloca a sua posição à prova perante uma acção divina. Afinal, parece dizer que não exerce liderança devido a um desejo pessoal, do qual pode tirar proveito, mas de uma missão maior, a qual se submete, que é levar o povo judeu à terra prometida. Deus abre uma fenda no chão onde caem os 250 rebeldes, ao final. Mas por duas vezes Moshé e Aaron O impedem de matar todo o povo. Primeiro através de um diálogo, Moshé diz para Deus “Se um homem pecar, contra toda a companhia Te indignarás?”. Depois, quando Aaron, a pedido de Moshé, faz expiação pelo povo “e pôs-se entre os mortos e entre os vivos, e deteve-se a mortandade”, evitando tragédia maior.

Este momento da Torá é muito tenso. O caminho do povo e de Moshé não é fácil. Mas um olhar atento encontra muita riqueza na forma como Moshé maneja a situação e se relaciona com o outro, seja ele quem for. Moshé busca diálogo com Deus, pois mesmo diante do Eterno não silencia o seu aguçado senso de justiça. Frente ao povo, consegue manter-se firme e sensível, algo extremamente difícil, principalmente para quem é cobrado e questionado a todo momento. Não se trata de um personagem perfeito. Nós sabemos que não existe ninguém retratado assim na Torá. Mas Moshé nos aponta alguns caminhos possíveis para lidar com situações tão críticas. No próximo ano, certamente, esta parashá será “outra” e nos trará novos ensinamentos.

 

Shabat Shalom!

Paulo Koatz Miragaya

Fonte arirj.com.br
Ohel Jacob
Sinagoga de rito Progressista, única askenazi em Portugal, fundada em 1934. Membro Afiliado da EUPJ/WUPJ (European Union Of Progressive Judaism / World Union Of Progressive Judaism) desde Abril de 2016.