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O que é um “minián”?

  |   Judaísmo

A palavra hebraica מִנְיָן‎ “minián” quer dizer número. Há uma grande diferença se existe minián num serviço ou não. Mas porque cada comunidade faz as suas decisões consoante as tradições locais (minhag hamakom), vou aqui deixar várias respostas à luz do judaísmo moderno.

 

(1) A Resposta do Talmude: Não é como é feito, mas é a base de todas as interpretações nas comunidades de hoje. Então, temos que saber: No tratado Berachot, na folha 21b, diz que a Torá refere, em Levítico 22:32, que Deus deve ser santificado no meio dos filhos de Israel. O verso diz: “Eu sou o Eterno! Não profanareis o Nome de Minha santidade, e serei santificado entre os filhos de Israel.” Reflectindo um pouco mais sobre esta mitzvá, pode concluir-se não haver clareza. Não sabemos quantos filhos de Israel são necessários. São 100? 50? Talvez apenas dois? Como fazer esta mitzvá? Neste sentido, os rabinos buscaram outros versos na Torá que pudessem dar ideias sobre o número de pessoas no meio das quais Deus devesse ser santificado e encontraram, em Números 16:21: “Separai-vos do meio desta congregação…” A Torá fala aqui sobre 10 dos espiões que foram maus, mas o conteúdo aqui não importa, o que importa é esse número – 10. Então, é lógico, Levítico 22:32 quer dizer que Deus é santificado no meio de 10 pessoas. A partir daqui tudo se tornou claro e a tradição judaica não mais questionou esta situação. Claro que tratando-se de uma celebração em público, essas 10 pessoas se referem a 10 homens (as mulheres só adquiriram direitos públicos na sociedade em geral a partir do século XIX).

 

Hoje em dia, surgem mais perguntas, por exemplo se o conceito de um Minián ajuda uma comunidade ou não. E como interpretar a regra da tradição judia sobre 10 homens, nos dias que correm? Então, temos mais respostas.

 

(2) A resposta do judaísmo ortodoxo moderno: A Torá é dada por Deus. Então, mesmo se não a entendemos ou não concordamos com ela, a definição de minián vem da torá she be-al-pe, a Torá oral, que é mesmo mais importante do que a Torá escrita, a torá she-bichtav. Mas ambas são literalmente dádivas de Deus, no Sinai. Assim sendo, devemos fazer como a tradição judia nos diz. Mas o que fazer com as mulheres, nestes tempos modernos? Uma solução: Cada reza que não seja obrigatória e para tudo que não exija minián, as mulheres podem mesmo ser líderes nestes casos, desde que os homens sejam em número inferior a metade do número de mulheres. Porque se trata de uma situação fora do Levítico 22:32 e da tradição. São rezas privadas.

 

(3) A resposta do judaísmo liberal e reformista americano: Sabemos bem que a tradição tem a regra sobre o minián. Mas qual é o aspecto mais importante dessa regra? O número ou a ideia de santificar Deus? É que para santificar Deus no judaísmo precisamos de uma congregação. Ninguém pode ter uma relação com Deus sozinho. Cada indivíduo tem necessidades que exigem a existência de uma congregação, para que esta o apoie financeiramente ou de outras formas, quando necessário, etc. Mas hoje em dia muitas pessoas vivem longe de uma sinagoga, ao contrário dos tempos antigos em que as pessoas viviam todas perto da sinagoga. Então, muitas vezes não é possível fazer um serviço completo por causa do reduzido número de pessoas, e pessoas que, às vezes, com viagens longas, são quase punidas por chegar em vão. Então, algumas comunidades dentro do judaísmo progressista tomaram a decisão de não observar a mitzvá do minián e fazem tudo em cada serviço (o que para os visitantes ortodoxos pode ser muitíssimo desconfortável).

 

(4) A resposta do judaísmo conservador e de muitas congregações progressistas na Europa: Este é o caminho do meio termo. Aqui, o conceito de minián é muito importante, é uma tradição bem mantida. Se não houver um minián, há várias coisas que não podem ser feitas num serviço e isso imprime muita responsabilidade sobre cada membro da comunidade de estar presente nos serviços. Mas hoje em dia sabemos que quando foi interpretado o número 10 no Talmude, o conteúdo do texto não importou, não importou que esses 10 indivíduos fossem homens maus, nem mesmo importou que eles fossem homens. Então, um minián são 10 pessoas. “Deus deve ser santificado entre os filhos de Israel”. A palavra hebraica “banim” quer dizer filhos ou filhas ou ambos, e é claro que são membros do povo Israel. Então, um minián são 10 pessoas judias. Existem poucas comunidades liberais que pensando nas comunidades muito pequenas, onde será difícil reunir 10 pessoas, descobriram que o Talmude de Jerusalém contém um outro número diferente do Talmude da Babilónia, referindo que 7 pessoas são suficientes para um minián. Mas isso é uma tradição raramente praticada e muito pouco conhecida. No entanto, essas comunidades também elas dão grande importância ao princípio do minián e outras ainda que apesar de manterem o minián, se num serviço alguém tem que dizer Kaddish, e acaso não estiverem presentes 10 elementos, o Kaddish é dito mesmo assim, em respeito à honra dessa pessoa.

 

Shacharit de Shabat com minian e sem minian

 

 

Annette Boeckler
Dr.ª Annette Mirjam Böckler é professora de Liturgia Judaica e Bíblica na Universidade Leo Baeck, em Londres, onde é também Bibliotecária. Escritora e tradutora em matérias Judaicas (sendo a tradutora do Seder haTefillot - o primeiro livro de Orações liberal após o Shoah na Alemanha), tem desenvolvido a tradução da edição alemã dos comentários da Torah de W. Gunther Plaut.