Pessach e o mês judeu de Nisan

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Alguns aspectos que conhecemos e alguns para nos fazer pensar

 

Nisan

 

 

O mês de Nisan é o primeiro mês do calendário judeu. Embora contemos os anos começando em Tishri, contamos os meses começando em Nisan, o mês do Êxodo do Egipto. Então, cada novo mês pretende ser uma lembrança da libertação da escravidão – o segundo, terceiro, mês depois do Êxodo do Egipto, sucessivamente. Os meses são importantes para saber onde acontecem as festas judaicas. Mais uma vez, cada festa judaica é uma lembrança do Êxodo do Egipto, mas em Pessach esse tema é o tema principal.

 

Pessach começa na noite do dia 14 de Nisan (em 2017, dia 10 de Abril). Os primeiros dias de Nisan antes de Pessach são cheios de trabalho em casa, porque durante Pessach não se deve possuir qualquer Chamets: coisas que contêm um dos cinco cereais do país de Israel: trigo, cevada, espelta, aveia ou centeio. A única excepção é a Matsá, um pão de um desses cinco cereais, mas feito em menos de 18 minutos (os asquenazitas também tratam ervilhas, lentilhas, milho, feijões, arroz, etc. como Chamets). Chamets quer dizer “não kosher lePessach”. Então, antes de Pessach é importante recolher todo Chamets na casa e consumir ou vender. Existe a tradição, nalgumas famílias, de fazer uma busca de Chamets com uma pluma, uma colher e uma vela, na noite antes de Pessach, noite de 13 de Nisan, um evento para as crianças. De manhã cedo do dia 14, é tradição queimar o último Chamets. No judaísmo ortodoxo é costume os primogénitos jejuarem neste dia, desde a manhã até a noite. No judaísmo progressista a venda simbólica do Chamets a um rabino/rabina e o jejum não são comuns, pelo contrário, são até reprovados (desenvolvido num próximo artigo). Mas obviamente, no todo, é importante para o Judaísmo não haver Chamets e não comer Chamets durante Pessach.

 

 Seder

 

 

A Hagadá é o livro que se usa durante o jantar da primeira noite de Pessach. A palavra “hagadá” quer dizer “narração”, porque esse primeiro jantar começa com a narração sobre o Êxodo do Egipto. É um jantar bem estruturado numa ordem de 15 fases:

 

(1) cadesh [fazer kidush da festa] (2) urechats [lavar as mãos sem benção] (3) carpás [comer verdura ou legumes] (4) iáchats [partir uma matsá] (5) maguíd [contar a narração] (6) rochtsá [lavar as mãos com benção] (7) motsí [benção hamotsí antes do jantar] (8) matsá [bênção antes de comer matsá pela primeira vez] (9) marór [comer ervas amarguras] (10) corech [ervas amarguras com matsá] (11) shulchan orech [jantar] (12) tsafún [buscar a matsá escondida] (13) barech [Birkat haMason] (14) halel [cantar Salmos 115-118: o resto dos salmos do halel que não foram cantados ao fim do maguíd, o grande Halel Salmo 136 e o hino nishmát] (15) nirtsá  [declaração do fim do seder e mais canções].

 

Ordem em hebreu quer dizer “seder”. Por isso esse jantar se chama “Seder”. As primeiras 10 fases do seder são uma lembrança do passado. Elas contêm a história do Êxodo do Egipto com comidas simbólicas e estudos dos textos da Torá, da Mishná e dos midrashim, assim como debates sobre eles. A fase número 11 aborda um jantar festivo sem Chamets, em que celebramos a nossa presença como povo judeu hoje e agora. É uma mitzvá comer Matsá nessa primeira noite de Pessach, pelo menos um pedaço pequeno. Nas outras noites só não se pode comer Chamets. Depois, o jantar tem mais 4 fases que contêm Birkat haMazon e canções de Pessach, expressão de esperança para o futuro. Tudo isso é uma mistura de leituras do texto da Hagadá e de outros textos e/ou actividades relevantes para o dia.

 

Usamos quatro copos de vinho durante o seder. Essencialmente, o seder é como um duplo Kidush. Começamos com um copo de vinho e a santificação da festa, lavamos as mãos (sem bênção) e comemos ervas. Depois, em vez de comer desfrutamos de palavras. Bebemos um segundo copo de vinho, lavamos as mãos, dizemos a motzí e jantamos – ordem que conhecemos dos jantares cada shabat. A seguir, cantamos Birkat haMason como de costume. E porque é uma festa, concluímos Birkat haMason com um copo de vinho, o terceiro copo do seder. Depois, cantamos e concluímos o seder com um quatro copo de vinho. Então, é como um jantar dentro de um outro evento. Os quatros copos lembram das cinco (sim!) promessas do Exôdo 6:6-8:

 

“Eu sou o Eterno. (1) Eu os livrarei do trabalho imposto pelos egípcios. (2) Eu os libertarei da escravidão. (3) Eu os resgatarei com braço forte e com poderosos actos de juízo. (4) Eu os farei meu povo e serei o vosso Deus, então vós sabereis que eu sou o Eterno, o vosso Deus, que vos livrou do trabalho imposto pelos egípcios. (5) Eu os farei entrar na terra que, com mão levantada, jurei que daria a Abraão, a Isaque e a Jacó. Eu vos a darei como propriedade. Eu sou o Eterno”.

 

Como a quinta promessa ainda não tinha acontecido no tempo onde o seder foi escrito – séculos II a XVI (o Estado de Israel só veio a formar-se já em pleno século XX) -, não bebemos o quinto copo mas deixamo-lo para Eliahu.

 

Tradicionalmente, cada festa é celebrada por dois dias, então no judaísmo ortodoxo existe um secundo primeiro dia de Pessach com um segundo seder na noite de 15 de Nisan (11 de Abril, 2017). Muitas vezes, o primeiro seder é um evento familiar ou com amigos, e o segundo seder é uma oportunidade de reunir a congregação como uma grande família. Congregações progressistas realizaram a ideia de fazer um seder na congregação logo na primeira noite, para cada um que não tenha uma família ou não saiba como fazer um seder. É também uma boa tradição ter visitantes num seder. A Hagadá mesma diz “todo aquele que tem fome, que venha e coma; todo aquele que passa necessidade, que venha e celebre Pessach connosco.” Ninguém deve estar sozinho na primeira noite de Pessach.

 

 Omer

 

 

Depois do primeiro dia de Pessach começa a Contagem do Omer, em Hebreu: Sefirat Haomer (poder-se-á consultar como fazer isso, nas páginas 210-214 do nosso Sidur). Esta contagem liga Pessach a Shavuot. Shavuot não é nada além do fim do período de Pessach. A nossa liberdade significa receber a Torá no Sinai. Conta-se o omer no início de cada novo dia, quer dizer bem cedo, logo após a escuridão.

 

 7 ou 8 Dias de Pessach

 

 

Pessach dura 7 dias até dia 21 de Nisan (17 de Abril) no judaísmo progressista (e em Israel, mas por causas diferentes),  8 dias no judaísmo ortodoxo fora de Israel, até 22 de Nisan (18 de Abril). O Shabat durante a semana de Pessach se chama Shabbat chol haMoed. Fazem-se leituras especiais; uma parte do Halel e canta-se o livro Shir haShirim (Cânticos), a “megilá de Pessach” numa melodia muito bonita e especial (os sefarditas não cantam, apenas lêem o texto).

 

O sétimo dia de Pessach é uma outra festa. A canção do mar é lida (Shirat ha-Iam) numa melodia especial. Também se cumpre uma parte no serviço para lembrança dos falecidos (Izkór, p. 540-542 do nosso Sidur). No judaísmo ortodoxo esse dia é celebrado por dois dias, por isso para os ortodoxos Pessach dura 8 dias.

 

Ao fim de Pessach, depois do sétimo ou oitavo dia, podem comer-se Chamets de novo. Notamos que os primeiros pedaços de Chamets – pão fresco, bolo, maçâ… – têm um sabor especial!

 

27 de Nisan

 

 

Existe mais um dia especial no mês de Nisan. O dia 27 de Nisan e Iom haShoá vehaGvurá, o dia judeu para lembrar a shoah (todos os outros dias são dias de não judeus, estabelecidos pelo governo ou igrejas, para lembrar o shoah). Nós não lembramos como vítimas, mas da coragem dos combatentes no gueto de Varsóvia. Muitas sinagogas fazem serviços de memória, com lembranças da sua própria história durante a shoah, ou eventos públicos didácticos, por exemplo para crianças de escolas públicas.

 

 O significado deste mês

 

 

Então, o mês de Nisan e um mês muito típico judeu, com momentos da alegria juntos com momentos da tristeza. Todos são momentos de lembrança. E esta pode ser a lição que podemos aprender a partir deste mês: Para conhecer a nossa identidade temos de lembrar-nos do nosso passado; para ter esperança, temos de confiar que aquelas forças divinas que moldaram o passado do povo judeu também estarão com a nossa congregação, agora e no futuro.

 

 

Annette Boeckler
Dr.ª Annette Mirjam Böckler é professora de Liturgia Judaica e Bíblica na Universidade Leo Baeck, em Londres, onde é também Bibliotecária. Escritora e tradutora em matérias Judaicas (sendo a tradutora do Seder haTefillot - o primeiro livro de Orações liberal após o Shoah na Alemanha), tem desenvolvido a tradução da edição alemã dos comentários da Torah de W. Gunther Plaut.