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O Judaísmo Progressista e as Três Semanas

  |   Judaísmo, Português

Hoje (11.7.2017) está de acordo com o calendário judaico o dia 17 do mês judio Tamuz (תמוז). É um dia especial. Em Hebreu chama-se Shivá Asar B’Tamuz (שבעה עשר בתמוז) ou Zom Tamuz (צום תמוז), Jejum de Tamuz. De acordo com a tradição judaica, este é o dia em que os antigos romanos violaram os muros de Jerusalém, um evento descrito na Bíblia, em Jeremias 39:2 e 52:6–7. Os antigos romanos entraram na cidade e três semanas depois destruíram o Templo. Três semanas depois do dia 17 de Tamuz é o dia 9 do mês judio de Av, em Hebreu Tisha beAv (תשעה באב‎ ou ט׳ באב‎).

 

Há outros eventos relacionados a essas datas. Os dois mais importantes do ponto de vista progressista são estes: Se diz que, no dia 17 de Tamuz, Moisés quebrou as tábuas dos mandamentos que recebeu em Shavuot, 40 dias antes. Quebrou-as ao ver o bezerro de ouro (Êxodo 32:15-19); Se diz que no dia 9 de Av os espiões voltaram depois de explorar a terra e deram um relatório ruim. O povo de Israel perdeu a confiança em Deus (Números 13:25-33).

 

Então, é interessante que o pecado do bezerro de ouro tenha sido punido com a destruição do bezerro e com tábuas novas, agora feitas por um ser humano. Mas a jornada do povo de Israel para a terra prometida continuou. Porém, o pecado do evento com os espiões termina com a morte da comunidade completa no deserto. Nenhum deles entrou na dita terra, apenas as duas únicas pessoas que pensaram que poderiam seguir em frente com confiança em Deus, Josué e Caleb. Foi a geração seguinte que conquistou a terra junto com estes dois. O que aconteceu em 17 de Tamuz – ter uma imagem de Deus – pode levar ao que aconteceu no dia 9 da Av – perder a confiança em Deus.

 

O 17 de Tamuz é um dia de jejum. Tradicionalmente, judeus se abstêm de comer e beber do nascer até o pôr do sol. Existe uma leitura especial no serviço da manhã e uma adição na Amidá. O dia 9 de Av é um dia de jejum grande, como no Iom Kipur, 25 horas de jejum com as mesmas regras do Iom Kipur. Há também leituras especiais, mas com destaque especial para Qinot – lamentações. Nos serviços à noite e pela manhã, o livro Echa (Lamentações) é cantado com melodias muito especiais, que de facto estão relacionados a eles e usadas em Purim; mas em Tisha beAv, o som é triste e meditativo. E canta-se Qinot (poemas de lamentação), uma espécie de Fados sobre o fado do povo Israel.

 

Durante as três semanas entre 17 de Tamuz e 9 de Av, há melodias especiais para Lecha Dodi. Judeus Ashkenazitas abstêm-se de realizar casamentos ou outros eventos alegres. Existem três leituras de admoestação e aviso dos profetas nos serviços da manhã.

 

O Judaísmo Progressista, no século XIX, pensou que todas as coisas relacionadas ao antigo Templo não seriam mais importantes. Aboliu todos os jejuns por causa de Jerusalém e do Templo e todas as menções a este na liturgia e nos costumes judaicos. Então, por um longo período, não houve 17 de Tamuz como um dia especial e apenas algumas congregações ou indivíduos mantiveram Tisha beAv no Judaísmo Progressista. No século XIX, as pessoas pensavam numa perspectiva histórica. Não pensaram em termos de poesia ou metáforas quando se debruçavam sobre a Bíblia. Hoje, é diferente. O Templo de Jerusalém já não é apenas um edifício antigo destruído, mas um símbolo para a experiência da presença de Deus. Portanto, dias como 17 de Tamuz e 9 de Av podem nos fazer pensar nos perigos de perder a conexão com o divino. 17 de Tamuz ainda é um dia que só alguns conhecem. Mas Tisha beAv torna-se mais importante. No judaísmo progressista, sempre foi muito importante que cada um de nós adquira conhecimento, pense nas questões envolvidas e depois decida como agir. Então, o que cada um de nós fará, pessoalmente, no 17 de Tamuz e no 9 de Av? E quais as razões que cada um de nós encontrará para o fazer?

 

E, claro, o dia em que tudo isto se prepara é celebrado por todos os judeus – ortodoxos, progressistas e mesmo seculares: Rosh haShaná. Rosh haShaná acontece 7 semanas depois Tisha beAv, conectado com Tisha beAv por 7 leituras de conforto dos profetas nos serviços da manhã de Shabat. Um novo início para cada um.

 

Zom qal – que seja um jejum fácil para aqueles que jejuarem.

 

 

Annette Boeckler

Dr.ª Annette Mirjam Böckler é professora de Liturgia Judaica e Bíblica na Universidade Leo Baeck, em Londres, onde é também Bibliotecária. Escritora e tradutora em matérias Judaicas (sendo a tradutora do Seder haTefillot – o primeiro livro de Orações liberal após o Shoah na Alemanha), tem desenvolvido a tradução da edição alemã dos comentários da Torah de W. Gunther Plaut.