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Dona Gracia Nasi Mendes (1510 – 1569), uma Lisboeta

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Que estranho, mas, infelizmente, que comum: uma mulher que poderia ter conseguido algo enorme, mas que seria esquecida pelos historiadores. Aconteceu com Gracia Nasi Mendes, que só foi redescoberta lentamente a partir dos anos 80 do século passado, no Judaísmo Progressista, através da busca de mulheres na história judaica e pessoas activistas, que poderiam funcionar como modelos para os judeus progressistas de hoje. Geralmente, ela tornou-se mais conhecida a partir do ano 2010, quando os judeus de várias nações celebraram o 500.º aniversário dela.

Gracia Nasi nasceu em Lisboa em 1510, oriunda de uma família portuguesa respeitada que não tinha fugido de Portugal depois de 1496, mas cujos membros haviam sido baptizados já há alguns anos, antes do nascimento de Gracia, adoptando o sobrenome cristão “de Luna”. Então, Gracia – o nome é a forma portuguesa para hebreu “Hanna”, – foi chamada oficialmente “Beatrice de Luna” quando foi baptizada. Mas a família continuou a praticar o judaísmo em segredo como muitos cristãos novos.

Em 1528, Beatrice casou com Francisco Mendes Benveniste, também um cristão novo. Foi uma festa pomposa, oficialmente católica, porém, a cerimónia mais importante para a família aconteceu em segredo: a chuppa, o casamento judeu.

Francisco era um comerciante bastante rico que lidou com especiarias indianas. Em 1534, nasceu uma filha do casal, Ana (que mais tarde se chama “Reyna”). Infelizmente, Francisco morreu dois anos depois, em 1536. No seu testamento, ele tinha especificado a sua esposa para herdar a sua fortuna, assim como o seu irmão em Antuérpia, também ele um comerciante de especiarias. A partir desse momento, Beatrice passou a ser a gerente de uma grande empresa de negócios internacionais. Ao mesmo tempo, o Papa ordenou uma nova forma de Inquisição e havia o perigo de que a família pudesse ser colocada na prisão e a fortuna confiscada. Então, Beatrice viaja para Antuérpia. Sofre várias ameaças, mas consegue salvar a sua família e a sua fortuna, e em 1544 se muda-se para Veneza e depois, em 1547, para Ferrara. Lá, pela primeira fez, a família pôde viver livre como família judia. Em Ferrara, viviam muitos judeus portuguesas e aqui Beatrice de Luna começou usar o nome da família judeu: Gracia Nasi.

bibliaAinda em Ferrara, em 1553, Gracia Nasi Mendes pagou a impressão da primeira tradução da Bíblia, que hoje em dia se chama a “Bíblia de Ferrara”. Era uma bíblia em Ladino. Com certeza ela sabia sobre a tradição dos livros na sua cidade natal, Lisboa… talvez, quem sabe, ela tivesse conhecimento da bonita “Bíblia de Lisboa”. Uma edição crítica dessa primeira tradução judia da Bíblia está na biblioteca da Ohel Jacob.

Mas Gracia Nasi acabou por ter que fugir de novo e já não estava mais em Ferrara quando o livro foi lançado. Desta vez, a fuga devia-se a um conflito sobre a fortuna ou por causa de uma traição. Era a época da Contra-Reforma, viver na Itália tornara-se difícil, e Gracia foi para o império otomano, para Constantinopla (actual Istambul).

Durante toda a sua vida, continuou a gerir os negócios da família e usou sua influência e seu dinheiro para ajudar os cristãos novos portugueses a fugir da Inquisição. Gracia estabeleceu uma frota comercial para levar sefarditas a Israel, que foi parte do império otomano. Financiou a reconstrução das cidades de Tibérias, Gaza, Jafo, Safed e Jerusalém, tornando possível que yeshivot (escolas) e sinagogas pudessem ser estabelecidas lá e apoiou os pobres. Seu maior golpe foi o boicote do porto de Ancona, em Itália, em 1556, onde, por duas décadas, os cristãos novos puderam viver abertamente. Mas em 1555, o novo Papa colocou sob prisão toda a comunidade de judeus portugueses em Ancona. Quando a notícia das prisões chegou a Constantinopla, Gracia Nasi convenceu o sultão a intervir e, finalmente, isso levou a um boicote de Ancona por parte dos comerciantes judeus, tendo resultado na ruína financeira do Vaticano. Dentro do mundo judaico, no entanto, a opinião foi dividida sobre este boicote – mas é normal, pois que nós, judeus, não temos uma única opinião.

Gracia Nasi Mendes morreu em 1569, em Constantinopla, e sua história ficou esquecida por cerca de 500 anos.

 

 Assista aqui a UM FILME CURTO sobre o mundo de Dona Gracia Mendes

 

Para ler mais (em inglês), consulte: Miriam Bodian, “Doña Gracia Mendes”, Jewish Women’s Archive: Encyclopedia, disponível em http://jwa.org/encyclopedia/article/nasi-dona-gracia .

 

Annette Boeckler
Dr.ª Annette Mirjam Böckler é professora de Liturgia Judaica e Bíblica na Universidade Leo Baeck, em Londres, onde é também Bibliotecária. Escritora e tradutora em matérias Judaicas (sendo a tradutora do Seder haTefillot - o primeiro livro de Orações liberal após o Shoah na Alemanha), tem desenvolvido a tradução da edição alemã dos comentários da Torah de W. Gunther Plaut.