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Don Isaac Abravanel de Lisboa (1437-1508/09)

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Quando estudamos a Bíblia no judaísmo progressista, temos que ler o texto com três olhos: buscar o que o texto significou historicamente, buscar o que o texto significa hoje em dia para nós, e buscar como o texto foi interpretado na tradição judaica. Temos grandes comentaristas bíblicos judeus clássicos: Rashi do Norte da França, Kimchi do sul da França, Ibn Ezra e Nachmanides da Espanha, Sforno da Itália. Mas será que existe também uma tradição portuguesa da explicação judaica da Bíblia? – Existe.

Quem era Don Isaac Abravanel de Lisboa? Terá sido positivo que ele criticasse os comentaristas anteriores? Incluindo as personagens bíblicas? Seria correcto concentrar-se em esperanças messiânicas após a expulsão dos judeus da Espanha e acusar os conversos de traidores? Terá sido bom usar métodos do tempo do Renascimento para entender os textos bíblicos? Teria sido ele realmente inocente quando foi acusado de conspiração?

Explicarei estes assuntos em três partes – como, aliás, o próprio Abravanel gostava de fazer; colocar perguntas no início das suas exposições e depois dividir o texto em secções, tal como faziam estudiosos no Renascimento. Então, dividirei este artigo em: 1. a família de Isaac Abravanel e o seu trabalho para o Rei D. Afonso V; 2. como ele fugiu do Rei D. João II; 3. o que ele fez depois da expulsão dos Judeus da Espanha; 4. sobre os seus comentários bíblicos.

A título de curiosidade, não se sabe como se diz o sobrenome Abravnel. O hebreu אברבנאל pode ser lido como Abravanel, Abrabanel, Abarbanel ou Abarvanel. Os cientistas acham que o mais provável é Abravanel.

Isaac Abravanel nasceu em 1437 em Lisboa, numa família extremamente rica e importante. Ele cresceu numa casa onde os políticos entravam e saíam. Portanto, não deve surpreender-nos que ele mesmo tenha trabalhado com políticos. Seu pai, Judah, era Tesoureiro do Estado Portuguêsl. Originalmente, a família não era de Lisboa, mas de Sevilha, em Espanha. O avô de Abravanel converteu-se ao cristianismo aqui, mas depois dos massacres de Sevilha no século XIV, finalmente teve que fugir para Portugal, onde retornou ao judaísmo e onde seu neto, Isaac, recebeu uma educação judaica, estudando com Joseph Chaim, o rabino de Lisboa. Mas ele também estudou a filosofia do Renascimento, a tradição greco-romana clássica e línguas europeias.

Abravanel passou a maior parte da sua vida em Lisboa e foi o líder da comunidade judaica. Ele trabalhou como Tesoureiro para o Rei D. Afonso V. Usou sua influência e riqueza para o bem da comunidade judaica. Por exemplo, após o Rei ter capturado a cidade de Asilah, em Marrocos, Abravanel contribuiu ele mesmo com grande parte dos fundos necessários para libertar os judeus cativos e recolheu, pessoalmente, várias colecções por todo o Portugal.

Mas haviam de surgir mudanças. O Rei D. Afonso V morre cedo, com 40 anos, por causa da peste, e seu filho e sucessor D. João II revelou-se um monarca muito diferente, favorecendo o regime absolutista, e tendo executado o Duque de Bragança acusando-o de conspiração. Acusou também Abravanel, que tinha sido ligado ao Duque, de participar na trama. Abravanel foi avisado a tempo e conseguiu salvar-se fugindo desesperadamente para Castela, em Espanha, em 1483. Sua grande fortuna, no entanto, foi confiscada por Decreto Real, e no dia 30 de Maio de 1485 foi condenado à morte.

No entanto, durante o período em Espanha, no país do seu avô, Abravanel vive também em Toledo, o grande centro de estudos judaicos da época, onde começou a ocupar-se de estudos bíblicos, escrevendo comentários sobre Josué, Juízes e Samuel, livros bíblicos que, pelos seus conteúdos – reinos e lideranças políticas -, haviam sido ignorados pelos comentaristas judeus até então. Porém, passados seis meses, Abravanel encontrou um novo trabalho e entrou ao serviço dos “Reis Católicos” – Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela – como o principal colector de impostos, tendo recolhido somas consideráveis de dinheiro que permitiram ao Rei a reconquista da Espanha aos mouros. No entanto, Abravanel não viria a beneficiar dos seus méritos por muito tempo, pois que, em 1492, o seu patrono viria a ordenar a expulsão de todos os judeus de Espanha. Abravanel fez tudo ao seu alcance para induzir ao rei a revogar o decreto, tendo oferecido 30.000 ducados nesse sentido. Mas sem sucesso. A expulsão dos judeus de Espanha parece ter traumatizado Abravanel, que recusou o privilégio que lhe havia sido concedido pelo Rei ao permitir-lhe a permanência no país.

Optando por sair de Espanha junto com os seus companheiros judeus, não pôde vir para Portugal por causa da sua condenação à morte. Por isso, Abravanel passou o resto de sua vida em Itália, ocupando-se de projectos académicos. Certo dia, chegou a lamentar ter perdido tanto tempo e tanta energia buscando honrarias e dinheiro, não tendo usado mais tempo para estudar a Lei de Deus, o Rei mais alto.

Primeiramente, Abravanel viveu em Nápoles, mas em 1494, após a invasão francesa na Itália, teve que fugir novamente, perdendo mais uma vez todas as suas possessões. Em 1495, foi para Messina (Sicília), em seguida, para Corfu, e a partir de 1496 estabelece-se um tempo considerável num porto do mar Adriático governado pelo reino veneziano, Monopoli. Foi lá que escreveu com calma a maioria dos seus comentários. Em 1503, ele vai para Veneza, onde negociou um tratado comercial entre Portugal e a República de Veneza. Mas o mais importante: em Veneza, em 1505, completou o seu comentário da Torá, que considerava como seu trabalho mais importante e mais compreensível. Desenvolveu uma posição antimonárquica e uma preferência por um governo mais democrático, com base no julgamento e na decisão da maioria. Esta posição coloca-o no momento decisivo da transição entre a Idade Média e o Renascimento. Faleceu no Inverno de 1508-1509, em Veneza, e foi enterrado em Pádua.

Curioso para saber como alguém como ele entendeu a Bíblia? Para isso, dispomos dos seus comentários, uma vez que Abravanel viveu numa época em que já existia a impressão de livros. As perguntas dele ao início dos comentários da parashá da semana continuam a inspirar leitores até aos dias de hoje.

 

Para saber mais: Benzion Netanyahu, Don Isaac Abravanel, Statesman and Philosopher, Ithaca NY: Cornell University Press, 1972.

 

 Sílvio Santos fala sobre a origem da família Abravanel

 

 


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Annette Boeckler
Dr.ª Annette Mirjam Böckler é professora de Liturgia Judaica e Bíblica na Universidade Leo Baeck, em Londres, onde é também Bibliotecária. Escritora e tradutora em matérias Judaicas (sendo a tradutora do Seder haTefillot - o primeiro livro de Orações liberal após o Shoah na Alemanha), tem desenvolvido a tradução da edição alemã dos comentários da Torah de W. Gunther Plaut.