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  |   Judaísmo

Noé – Génesis 6:9−11:32

A maior parte da porção da Torá relativa a Noé é dedicada aos pecados da Humanidade, o castigo pelo longo e terrível dilúvio e a miraculosa salvação de Noé. Depois, quando toda essa parte termina, lemos a maravilhosa história do arco-íris, o pacto de Deus com Noé e seus filhos. A história é altamente dramática, enfatizando a sua importância para toda a Humanidade para a eternidade.

 

Talvez este foco na universalidade e na eternidade seja a razão pela qua nós tendemos a esquecer da peculiar história Judaica que começa aqui. Poucos se recordam que os últimos dois versos desta porção marcam o início da nossa história como povo: “Terá tomou seu filho Abrão, e Ló o filho de Harã, filho do seu filho, e Sarai, sua nora, mulher de seu filho Abrão, e partiram juntos de Ur dos Caldeus para irem para a terra de Canaã; e foram até Harã, e habitaram ali.” [Génesis 11:31]

 

A maioria de nós recorda as palavras de Deus dirigidas a Abraão na porção seguinte, “Leah Lekha…” (Pega em ti e segue…) [Génesis 12:1]. Nós adoramos dramas e estas palavras ecoam através das gerações. Sabemos que para seguir o chamamento de Deus, tendo que abandonar o país, a pátria e a família, e ir para um sítio desconhecido é uma prova máxima de fé. Contra o padrão deste eterno chamamento e deste quase indescritível acto de sacrifício, é difícil lembrar os dois versos de encerramento. Eles contam-nos ainda uma muito diferente e importantíssima história.

 

Não foi Abraão, mas sim o seu pai, Terá, que decidiu sair de Ur. Terá é descrito apenas brevemente, no mesmo sentido em que todos os patricarcas das gerações anteriores eram descritos: “E Naor viveu vinte e nove anos, e gerou Terá. E Naor viveu, depois de ter gerado, cento e dezanova nos, e gerou filhos e filhas. E Terá viveu sessenta anos, e gerou Abrão, Naor, e Harã… E Harã morreu na presença de seu pai Terá na terra onde nasceu, em Ur dos Caldeus. E Abrão e Naor tomaram esposas para si: o nome da esposa de Abrão era Sarai; e o nome da esposa de Naor, Milcá, a filha de Harã, o pai de Milcá, e o pai de Iscá. E Sarai era estéril; ela não tinha filhos.” [Génesis 11:24-30]

 

O pai de Terá, Naor, era o mais jovem daquelas gerações, com apenas 29 anos, quando seu filho Terá nasceu. Os filhos de Terá nascem quando ele tem 70 anos, mas ainda seu pai está vivo. As gerações estão conectadas.

Terá é forçado a experienciar a maior tragédia que um pai pode imaginar – ele sobrevive ao seu próprio filho, Harã. Embora não haja certeza do sentido do verso “morreu na presença de seu pai”, muitos estudiosos interpretam esta passagem como Terá testemunhando a morte de seu filho. Para aumentar o sofrimento de Terá, quando Harã morreu este era o único filho que tinha um filho, e mesmo os outros filhos vivos de Terá estando casados, uma de suas esposas, Sarai, era estéril.

 

O midrashim descreve Terá como um comerciante de ídolos. Alguns comentadores indicam que Terá sabia que os ídolos eram inúteis e lucrava à custa da ignorância dos outros; outros comentadores apresentam-no como um adorador de ídolos e um servo maligno do Rei Nimrod, contrastando com o seu piedoso filho, Abraão.

 

Mas nada disto está explícitamente mencionado na Torá. E nada é dito acerca das razões de Terá para sair de Ur e mudar-se para Canaã. Terá Deus falado com ele antes de falar com Abraão? Será que ele não suportava permanecer no sítio onde seu filho morrera? Quereria ele mudar o destino ou a sorte da sua família? Não sabemos.

 

Raramente paramos para considerar a possível contribuição ou ligação de Terá a Abraão e com o que nos tornámos como povo. Terá morreu antes de Deus falar a Abraão, dando-nos a sensação de que Abraão, o nosso novo herói, precisa separar-se do seu passado, da sua cidade, e do seu pai, para embarcar num novo futuro. Até o seu nome será mudado. Ele está desacorrentado, ligado a nada, livre para ouvir e obedecer a Deus. De facto, Abraão nunca menciona o seu pai nem nada ligado com ele: o passado ficou para trás, os elos à sua casa paterna desapareceram.

De muitas formas, Abraão é um protótipo Israelita. Ele deixou o que sabia e moveu-se para o desconhecido. Ele age como se não tivesse passado, como se não tivesse parentes, como se ele tivesse feito tudo sozinho, unicamente aceitando a ajuda de Deus.

 

Abraão assim representa a nossa adolescência. Seus filhos, Isaac e Jacob, representam a nossa maturidade. Eles reconhecem o seu passado; reconhecem as suas ligações aos seus antepassados e aprendem com eles.

 

A sociedade Israelita está muitas vezes presa na sua adolescência. Nós, também, estamos orgulhosos de nós mesmos hoje em dia, esquecendo todos os que permitiram a formação do “eu” que nós somos.

 

Os Israelitas agem como se tivessem que reinventar cada e todas as rodas. Estamos mais orgulhosos pelo facto de termos nascido aqui do que dos actos heroicos dos nossos avós, que tomaram a decisão de vir para cá, para o desconhecido. Prestamos mais atenção ao nosso sucesso militar do que à heroicidade dos feitos dos halutzim (pioneiros), que fizeram deste país o que ele é.

 

Sim, também nós adoramos drama. E preferimos o chamamento de Deus à responsabilidade de tomarmos decisões pessoais. A maioria dos Judeus Israelitas prefere a renovação aos movimentos liberais Judeus já existentes porque preferem reinventar-se em vez de conectar-se às suas tradições. Tudo isto são sinais da nossa imaturidade, a nossa adolescência.

 

Será que ainda havemos de crescer?

Shabat Shalom!

Rabina Alona Lisitsa

 

Rabbi Alona Lisitsa
The first female Rabbi in Israel to join a religious council. PhD from the University of Tel Aviv in Talmud and Ancient Texts and sponsored Rabbi for Spain and Portugal (EUBD), also in charge of rabbinic mentoring at the Hebrew Union College, Jerusalem.