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O Livro de Rezas de Gustav Leipziger de Breslau

  |   História, Institucional, Personalidades, Português

Na noite de 9 para 10 de Novembro de 1938, foram destruídas quase todas as sinagogas na Alemanha. Foi também o momento em que muitos decidiram sair da Alemanha. Aqueles que partiram depois de 1939 só puderam deixar a Europa através do porto de Lisboa. Então, milhares de refugiados alemães existiram em Lisboa durante a II Grande Guerra e a nossa biblioteca possui cerca de 600 livros pertencentes a muitos desses refugiados. Para lembrar esses tempos, vou aqui contar uma outra história sobre um dos nossos livros.

 

Na nossa biblioteca temos um livro de rezas do rito progressista, imprimido em 1929. O título hebreu, סדר תפלות לכל השנה (seder tefillot lechol hashaná) quer dizer em português: “Livro de rezas para todo o ano”. Não é por acaso que o primeiro livro de rezas progressista brasileiro (1949) tinha o mesmo título, porque foi uma tradução deste livro alemão e o judaísmo progressista brasileiro começou orientado por essa ordem de rezas, através dos refugiados da Alemanha. O livro é mais conhecido como “Einheitsgebetbuch” – livro de rezas da união – porque existiu o ideal de ter um só livro de rezas para todas comunidades liberais, mas isso nunca aconteceu antes da Shoá. Foi apenas usado em poucas sinagogas, em Berlim e Breslau. Breslau era naqueles dias uma cidade alemã importante, que hoje se chama Wrocław e é parte da Polónia. O livro seder tefillot lechol hashaná foi editado por um famoso professor de liturgia, em Berlim, o Professor Dr. Ismar Elbogen, juntamente com o líder do judaísmo progressista na Alemanha na época, o rabino Dr. Caesar Seligman, que também era poeta, e pelo dirigente organizacional das congregações liberais na Alemanha, Dr. H. Vogelstein.

 

1. A nova sinagoga em Breslau, 1872-1938

 

A cópia que temos na sinagoga Ohel Jacob é, de facto, de Breslau. Tem um nome na primeira página do livro: Gustav Leipziger. Também tem um endereço com a cidade e a rua: Breslau, Scharnhorststr. 9 (rua que hoje em dia se chama: ul. Osiedlowa -> Google Maps). Gustav e sua esposa Doris, ne Friede, tinham um negócio de móveis em Breslau. Gustav era um especialista em móveis, interiores de castelos e das numerosas casas senhoriais na Silésia e Polónia. O casal teve dois filhos, Hanne e Hugo. Hugo tornou-se arquitecto. Depois de estudar em Hamburgo e nos EUA, Hugo retornou a Breslau e, em 1927, abriu junto com um colega, Gerhard Schönborn, um escritório de arquitectura em Breslau. Seu interesse principal era criar habitações para todos numa cidade para todos. Mas ele não seria capaz de realizar essas ideias na sua cidade natal. Seis anos depois de ter aberto o seu escritório, em 1933, o estado alemão, agora com Hitler como chanceler, proibiu os judeus de trabalhar como funcionários públicos. Em 1934, foi para a Austrália, e desde 1939, Hugo Leipziger-Pearce viveu nos EUA e foi professor de Arquitectura na Universidade do Texas. Faleceu em 1998.

 

Mas os pais dele, Gustav Leipziger – que possuiu o nosso livro de rezas – e a sua esposa Doris, ficaram em Breslau.

 

Sobre o próprio Gustav Leipziger, esse especialista de móveis e interiores de castelos, sabemos que nasceu em 22 de Março de 1872, em Breslau; foi preso em 6 de Abril de 1943, pela Gestapo; deportado em Maio de 1943, Auschwitz, campo de extermínio; e que faleceu a 6 de Agosto de 1943, em Auschwitz, no campo de extermínio.

 

Sobre a esposa, Doris Leipziger, née Friede, sabemos que nasceu a 28 de Novembro de 1881, em Breslau; tendo sido deportada de Breslau a 4 de Março de 1943, para Auschwitz, campo de extermínio.

 

Estas datas revelam muita dor. Eles foram, obviamente, separados. Gustav presenciou a deportação de Doris e, algumas semanas depois, foi levado para uma prisão da Gestapo. Apenas porque eram judeus. Ambos foram assassinados em Auschwitz, mas em momentos diferentes e talvez nunca mais se tenham visto após Março de 1943.

 

A internet não nos fornece muita informação sobre a filha deles, Hanne Leipziger, mas é muito possível que ela tenha podido fugir para os EUA , tal como Hugo. Então, quem sabe não foi ela que trouxe o livro de rezas do pai para Lisboa? E quando terá sido? Teria usado o porto de Lisboa, já que fugiu muito tarde, numa altura em que nenhum outro porto deixaria as pessoas saírem da Europa? Ela já saberia então o que acontecera aos seus pais? Ou será que os deixou em Breslau porque não podia convencê-los a acompanhá-la? Talvez, por causa de uma página de internet americana, a família ainda esteja à procura de informações sobre Doris.

 

Uma coisa é certa, alguém deixou um livro de rezas para trás na Ohel Jacob, em Lisboa. Um livro que já pertencia a “Gustav Leipziger, Breslau, Scharnhorststr. 9“.

 

 

Fontes:
Message Board Leipziger-Friede
Texas Archival Resources Online, Archive Hugo Leipziger-Pearce
Memorial Book do estado da Alemanha
Annette Boeckler

Dr.ª Annette Mirjam Böckler é professora de Liturgia Judaica e Bíblica na Universidade Leo Baeck, em Londres, onde é também Bibliotecária. Escritora e tradutora em matérias Judaicas (sendo a tradutora do Seder haTefillot – o primeiro livro de Orações liberal após o Shoah na Alemanha), tem desenvolvido a tradução da edição alemã dos comentários da Torah de W. Gunther Plaut.