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Leonard Cohen ז”ל

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Na semana passada, Leonard Cohen morreu em Los Angeles, de cancro. Ele tinha 82 anos. Sua morte no dia 7 foi tornada pública no dia 10 de Novembro, o dia do funeral em Montreal.

O poeta e cantor canadiano nunca fez segredo do facto de ser judeu. Então, muitas sinagogas mencionaram a sua morte neste shabbat Lekh Lekha e se lembraram das canções dele. Algumas cantaram Adon Olam na melodia de Leonard Cohen, Halleluia. Outras usaram essa melodia para Lecha Dodi (Escute aqui).

Cohen era o neto de dois rabinos importantes: o pai de sua mãe era o Rabino Solomon Shlomo Zalman Kline (Klonitsky), da Lituânia; o pai de seu pai era o Rabino Lyon Cohen, Presidente fundador do Canadian Jewish Congress. A família é membro da Congregação ortodoxa Shaar Hashomayim em Quebec, a sinagoga asquenazita mais antiga no Canadá. Conforme seu desejo, Cohen foi enterrado de acordo com o rito judaico. (Ler mais)

Os textos de Leonard Cohen são cheios de alusões bíblicas e de citações da liturgia judia. É um cunho judeu buscar significados na vida, lutar com Deus, procurar justiça. Cohen encontra as suas palavras na linguagem do judaísmo. Eis aqui alguns exemplos mais típicos e mais conhecidos.

Uma das suas últimas canções, “You want it darker“, lançada a 21 de Outubro de 2016, adaptou a linguagem da oração Kaddish, a reza mais conhecida como uma oração em memória de um parente falecido. Mas Leonard Cohen não se lembra de alguém específico aqui, ele próprio está a lutar com Deus contra a morte.

Magnified, sanctified be thy holy name
Vilified, crucified in the human frame
A million candles burning for a help that never came
You want it darker, we kill the flame.

(Exaltado, santificado seja teu santo nome

Denegrido, crucificado na forma humana

Um milhão de velas queimando por uma ajuda que nunca veio

Queres mais escuridão, apagamos a chama.)

O primeiro verso desta canção alude ao Amidah dos dias úteis, falando sobre Deus como médico (um imagem bíblica, cf. Jer 17:14): If you are the healer, it means I’m broken and lame (Se você é o curandeiro, significa que eu estou quebrado e coxo). As palavras “Thine is the glory” – em Hebreu “Lechá ha gedulá” são palavras do serviço da Torá (e cf. 1 Chron 29:11), na canção se diz: If thine is the glory then mine must be the shame (Se tua é a glória, então a minha deve ser a vergonha).

O poeta luta com Deus, mas no final chega à conclusão: Hineni, hineni. I’m ready, my Lord. (Hineni, hineni, estou pronto, meu Senhor.) Na Bíblia, a palavra hineni  (literalmente quer dizer “eu estou aqui”) é a resposta à uma chamada de Deus, por exemplo, por Abraão depois de Deus o ter chamado para sacrificar Isaac (Gen 22:9 u. 11).

(Escute You want it darker (2016) com letras em Inglês) – Compare com Kadish, SIDUR p. 272, SIDUR da CIP p. 57.


Outro exemplo de como Leonard Cohen adaptou a Bíblia é a canção “The Story of Isaac”. O Akedah (ligação de Isaac, ver Génesis 22) é lido na sinagoga em Rosh haShanah. Trata-se de um conto difícil e existem muitas interpretações no judaísmo. Cohen conta a história a partir da perspectiva de Isaac e usa-a como as palavras de uma criança abusada por seu pai, uma experiência pela qual tantos passam e sobre a qual tão poucos podem falar.

(Escute The Story of Isaac (1969) com letras em Inglês) – Compare com Génesis 22.


As grandes festas, muitas vezes, fornecem os temas de Leonard Cohen. “Who By Fire” é uma adaptação de “Unetane Tokef”. É uma das orações mais dramáticas na liturgia asquenazita. (Não existia no nosso Machzor, que segue a liturgia sefardita.) Leonard Cohen alude muito claramente a este texto, mas ao mesmo tempo dá-lhe um significado diferente. Ele está tão aprofundado nas palavras da liturgia, que esta lhe fornece as palavras certas para lidar com sua própria vida. E isso nos mostra que é permitido e criativo usar os textos da nossa tradição.

(Escute And who by fire (1974) com letras em Inglês) – Compare com Unetáne Tokef, Machzor Shaná Tová da CIP p. 141-143; não existe na liturgia sefardita.


Uma abordagem crítica da fé em Deus é expressa em “Waiting for a miracle” (Esperando por um milagre). O poeta perde uma parte da realidade esperando o milagre.

(Escute Waiting for the miracle to come (1992) com letras em Inglês)


Iehí Ratsón milefanecha … – Que seja de Tua vontade, ó Eterno, nosso Deus e Deus de nossos antepassados… Assim começam muitas orações privadas judias. Pedimos a Deus para suprir nossas necessidades ou as da comunidade. A canção “If It Be Your Will” (Queira ser Tua vontade) usa essa expressão.

(Escute If It Be Your Will (1984) com letras em Inglês) – um exemplo para uma reza Iehí Ratsón … no SIDUR ao fundo da p. 26.


Mas a mais famosa das canções de Leonard Cohen é provavelmente “Halleluja”. Mas novamente o significado é transformado para nos fazer pensar. A canção é uma alusão ao compositor e cantor Rei David e à traição de Batsheva; na canção, Cohen o misturou com a traição de Sansão por Dalila, que cortou o cabelo de Sansão enquanto ele dormia e, assim, o fez perder seu poder. Cohen não só usa alusões aos textos da liturgia, mas também à música litúrgica. Por exemplo, o primeiro tema sugerido neste artigo – “You want it darker” – está falado, não cantado; lembra o Kadish dos enlutados que é referido na liturgia. Também aqui, no “Halleluja”, Cohen usa motivos litúrgicos. Na liturgia asquenazita, muitas rezas começam musicalmente com uma quarta e uma quinta (em inglês: a forth, a fifth), e só depois os motivos característicos para o evento aparecem. Até mesmo a melodia Halleluja começa com uma quarta e uma quinta. E depois joga com as expressões inglesas para menor e maior, mas as palavras “fall” (queda) e “lift” (elevação) são relacionadas com a vida. Note que a melodia de Cohen, Halleluja, não sobe. Desce, como se ele criticasse o abuso da religião por causa do poder.

(Escute Halleluja (1984) com letras em Inglês) – Compare com 2 Samuel 11 (David) e Juízes 16 (Dalila).


Das canções de Leonard Cohen podemos aprender como entender ou lutar com o nosso mundo, procurando palavras na tradição judaica. Escutamos as canções da memória.

Annette Boeckler
Dr.ª Annette Mirjam Böckler é professora de Liturgia Judaica e Bíblica na Universidade Leo Baeck, em Londres, onde é também Bibliotecária. Escritora e tradutora em matérias Judaicas (sendo a tradutora do Seder haTefillot - o primeiro livro de Orações liberal após o Shoah na Alemanha), tem desenvolvido a tradução da edição alemã dos comentários da Torah de W. Gunther Plaut.