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A Bíblia de Lisboa

  |   Judaísmo

Na idade média, especialmente no século XV, Lisboa era um centro de livros. A impressão de livros começou em Lisboa em 1487, mas em paralelo ainda eram feitos os manuscritos, uma vez que a nova técnica de imprimir nunca podia produzir livros tão bonitos e coloridos como um manuscrito ornamentado. Existia uma escola famosa de escribas em Lisboa. Algumas das suas obras estão hoje em dia nas bibliotecas de Paris, Londres, Oxford, Roma e Jerusalém. Um produto desses artistas lisboetas ficou o mais famoso: os três códices com as cotas Or. MS 2626, Or. MS 2627 e Or. MS 2628 na British Library em Londres: a Bíblia de Lisboa (“Lisbon Bible”).

A Bíblia de Lisboa contém o texto completo dos 24 livros da Bíblia hebraica mais comentários e uma lista dos 613 mandamentos da Torá de acordo de Maimónides, ligados em três volumes. Foi feito (e pagado) por Yosef ben Yehudah al-Hakim.

O texto hebreu dessa Bíblia foi escrito por Samuel ben Samuel Ibn Musa, bem conhecido como Shmuel ha-sofer (“Samuel o escriba”). Ele escreveu vários manuscritos em Lisboa no século XV. As suas letras têm uma forma típica sefardita. O texto também apresenta as vogais e os sinais musicais da Torá.

Na última página do livro (imagens 2 e 3), se diz que Samuel terminou essa Bíblia na noite de sexta feira, erev shabat, em mês de Kislev do ano 5243, depois da criação do mundo, na cidade de Lisboa. Então, foi terminada em Novembro ou Dezembro 1482 EC.

 

Bíblia de Lisboa

2. vol. 3, fol. 185v, o início do cólofon de Samuel

Bíblia de Lisboa

3. O fim do cólofon de Samuel, a última linha começa com “na cidade de Lisboa”

Um outro escriba, cujo nome nós não sabemos, adicionou vários comentários numa escritura muito pequena nas margens superior e inferior das páginas e entre as colunas na forma dos desenhos circulares de linhas, e desta forma acrescentou mais ornamentos (ver imagem do cabeçalho – Vol. 1, fol 23b, o início da Torá na Bíblia de Lisboa).

Um terceiro escriba anónimo adicionou os cabeçalhos em cada página e os números dos capítulos numa outra escrita e com uma tinta diferente da do texto principal.

As decorações impressionantes foram feitas pelos vários artistas. São motivos florais, filigranas ou escrita ornamental de ouro. Cada início de uma nova parashá (leitura da semana) é marcado com um ornamento filigrana contendo as letras hebraicas de ouro pe resh shin פרש (“secção”).

As páginas, ao início e ao fim, são mais ornamentadas do que as outras. Não se tratam de textos bíblicos, mas comentários. Elas têm grandes margens ornamentadas florais. Os artistas realmente mostraram aqui as suas grandes habilidades.

Existem números a lápis nas frentes, no canto superior esquerdo de cada página. Eles foram escritos pelos bibliotecários do British Museum no século XIX. Isso torna possível citar uma página, como por exemplo a parashá KI TETZE, que começa no verso da Folha 169.

A Bíblia de Lisboa é importante. É um dos manuscritos bíblicos hebraicos mais acurados, é por isso que tem importância para os estudos bíblicos até hoje.

Mas imagine… somente 14 anos depois daquela noite de shabat em Novembro ou Dezembro de 1482, os judeus foram espalhados por Portugal. Não sabemos o que aconteceu depois com esse manuscrito por exactamente 400 anos. Só sabemos que a British Library comprou o manuscrito no dia 17 de Novembro de 1882 ao Rabino Benjamin ben Jochanan ha-Kohen de Bukhara (a propósito, ele traduziu a Bíblia para a língua persa no século XIX). Que pena os livros não poderem falar!… O que terá acontecido nas viagens dessa Bíblia, escrita numa noite de Inverno de 1482, numa qualquer casa portuguesa, em Lisboa, até chegar um dia a Bukhara, no Uzbekistan… Nunca vamos saber. Mas agora está em Londres e os bibliotecários da British Library usam de grande cuidado profissional. É um testemunho impressionante da vida judaica em Portugal antes de 1496.

 

Consulte a Bíblia de Lisboa aqui (para folhear):

 

bible

 

 

 

 

Annette Boeckler
Dr.ª Annette Mirjam Böckler é professora de Liturgia Judaica e Bíblica na Universidade Leo Baeck, em Londres, onde é também Bibliotecária. Escritora e tradutora em matérias Judaicas (sendo a tradutora do Seder haTefillot - o primeiro livro de Orações liberal após o Shoah na Alemanha), tem desenvolvido a tradução da edição alemã dos comentários da Torah de W. Gunther Plaut.