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História da Hehaver-Ohel Jacob | Parte III

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Hehaver e Ohel Jacob – auge e declínio – velhas rupturas, novos caminhos

Ohel Jacob e os B'nei Anussim

“Apesar do rabi da sinagoga Shaaré Tikvá, Mendel Diesendruck, ser askenazi de origem, ele dirigia os serviços em rito sefardita por ser essa a afinidade da maioria dos judeus que a frequentavam. Por seu turno, os «judeus polacos» que se juntaram na cidade, preferiam fazer eles próprios o seu rito religioso askenazi, com cantos e orações em Yiddish, sem contratar oficiante. O grande impulsionador da vinda destes polacos para Lisboa e primeiro dirigente desta sinagoga foi Samuel Sorin. O livro de actas existente inicia com a inauguração da Ohel Jacob em 15.11.1934, conta Dina Sorin Cohen, sua filha, que fotografou as páginas escritas para enviar a tradução, de Israel.” [Marina Pignatelli]

Aron Katzan, outro dirigente da Ohel Jacob, descreve as dificuldades de legalização destes judeus polacos, em especial os que só falavam Yiddish porque vinham das aldeias, e pelas suas dificuldades económicas visíveis nas parcas indumentárias, discriminados pelos próprios judeus já há muito estabelecidos na cidade. Polacos que só viriam a usufruir de Embaixada própria durante a Segunda Grande Guerra e após. Até lá, a atribuição de vistos era feita por um Cônsul que se deslocava à Ohel Jacob, a períodos espaçados.

A Hehaver instala-se na Rua Rosa Araújo perto de 1945, mas já a Ohel Jacob funcionava na Avenida Elias Garcia, onde o avô de Aron Katzan, Pinchas Katzan, se torna oficiante, entre a década de 30 e até à independência de Israel. Aron descreve que mesmo entre estes judeus askenazi se partilhavam diferentes afinidades, consoante as origens de cada um. Nesta altura, judeus sefarditas e askenazis frequentavam ambas as sinagogas, Shaaré Tikvá e Ohel Jacob, o que, mais uma vez, não ocorria livre de atritos entre desordem ritual, pois que o rigor e tradição de uns colidia com a experiência e conceitos de outros.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Ohel Jacob labora com acrescida vitalidade e importância, tendo em conta a diáspora alemã e polaca originada pelo Holocausto. Milhares de judeus askenazis refugiaram-se em Portugal, servindo-se de Lisboa como ponto estratégico de fuga para outros destinos, uma vez que a permissão do Estado Novo relativamente a estes judeus se limitava à permissão de passagem e não a autorização de permanência. O regime Salazarista não pôde ser propriamente considerado de anti-semítico, mas também não foi um regime acolhedor de judeus. Ainda no ano de 1932, “portanto ainda na vigência da Constituição de 1911 e no mesmo ano em que Salazar se tornou Chefe do Governo e iniciou a edificação do Estado Novo, a pressão social de alguns grupos católicos contra os judeus em diversas localidades, nomeadamente, em Pinhel, Covilhã e Arcozelo, foi tão grande que, segundo Barros Basto, algumas famílias judaicas viram-se constrangidas a iniciar uma autêntica diáspora para cidades como Lisboa ou Porto. Aquela reacção antijudaica, sobretudo no interior do país, iniciada no Estado Novo, tornou-se irreversível até aos nossos dias, pois, das quase três dezenas de núcleos judaicos das Beiras e Trás-os-Montes, só sobreviveu a comunidade de Belmonte.” [Emílio Corrêa]. Na sequência, durante o período nazi, houve particular preocupação em limitar a entrada em Portugal de judeus polacos e indigentes sem possibilidades económicas, numa altura em que o país se encontrava numa crise de desemprego. César de Sousa Mendes, embaixador de Portugal em Varsóvia, defendia o perigo que residia na “intenção definida de procurar colocar em Portugal aquele excedente de judeus polacos que outros países absorviam anualmente e à qual têm sido fechadas inúmeras fronteiras”, referindo-se a um grupo existente na Polónia que pretendia infiltrar judeus em Portugal. (…) José Catela, um dos principais funcionários da PVDE, afirmava que os judeus polacos eram “uma desagradável corrente de indesejáveis, que tanto se tinham feito notar” (…). Numa linguagem xenófoba, a polícia de vigilância associava judeus, comércio ilícito, espionagem e comunismo, o que era muito comum nos discursos da direita europeia, especialmente na ideologia da extrema-direita francesa, por exemplo.” [Susana Chalante] Mais uma vez, apenas os judeus abastados teriam outras facilidades em Portugal, pelo que foram então criados três tipos de vistos: de residência, de turista (30 a 60 dias) e de trânsito (48 horas). Em 1937, a História repete-se e os judeus viriam ainda a tornar-se o bode expiatório do atentado ao Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, mais uma vez por associação de judeus a comunistas, embora a tentativa de assassinato tenha sido da responsabilidade dos anarquistas. No seguimento deste acontecimento, a PVDE procede a um considerável número de prisões e explusões de judeus alemães e polacos.

Durante todo este período, entre várias outras instituições da Comunidade Israelita, foi excepcional a importância da Ohel Jacob e da Hehaver que coadjuvou a COMASSIS (Comissão de Assistência aos Refugiados), financiada pela JOINT e pela HICEM (1927), desdobrando-se em inúmeras estratégias para o salvamento do maior número de judeus possível. Extinta em 1941, calcula-se que a COMASSIS, mantendo a Cozinha Económica e o Hospital Israelita, terá assistido cerca de 40.000 refugiados judeus, fornecendo diariamente alimentação, vestuário e cuidados de saúde.

Nos finais de Segunda Grande Guerra, consta que Moisés Goldreich, juíz talmudista, deu aulas de hebraico e judaísmo, preparando dois rapazes para o Bar Mitzvah, um sefardita e outro askenazi, na Ohel Jacob, que continuou a ser, até à década de 60, a sinagoga preferida das famílias polacas – “«os polacos das malhas», como eram então conhecidos pela população portuguesa, por ser o negócio de muitos deles”. (…) “Lá eram celebrados todos os YomTov (dias santos), havia diariamente Arvit (a oração do final do dia) e contava com oficiantes muito respeitados e conhecedores da cultura e religião judaicas. «(…) o Eisenberg e o Tennenbaum, por exemplo, liam muito bem; ia lá muitas vezes também o Salomão Cohen, como oficiante.», lembra Salomão Marques.” [Marina Pignatelli]

Também a Hehaber regista actividade intensa desde o início da sua criação, em especial em 1932, que a obriga inclusivamente a mudar de instalações, e depois em 1933 quando já aloja 40 refugiados alemães e se lança em campanha de peditórios de ajuda e inúmeras actividades relacionadas, da qual se destaca a acção sionista para a viabilização da emigração destes judeus para a Palestina, tornando-se representante do Keren Kayemet Le Israel, presidido por Sofia Abecassis, sefardita, e integrando Siegfried Hiller e Fritz Neumenn, askenazis.

A Hehaber regista ainda, em 1937, uma série de reuniões regulares presididas pelo Rabino Diesendruck com o objectivo do ensino do hebraico, história e cultura judaicas, às quais assistiam uma média de 40 jovens. E em 1971 o número de sócios ascende os 280, incentivados por uma panóplia de actividades, com destaque para o grupo B’nei Akivá que organizava reuniões com a mesma adesão dos encontros do Rabino Diesendruck.

Na longa história da Hehaber, assinalam-se ainda datas marcantes, como o Grande Baile da Vitória, a 26 de Maio de 1945, e o concerto de Nella Basolla Maissa, no dia 29 do mesmo ano, na Av. Elias Garcia, em comemoração do fim da 2.ª Grande Guerra, a comemoração da independência do Estado de Israel, em 1948, já na Rua Rosa Araújo.

Em 1978, verifica-se um decréscimo de associados, dada a instabilidade política gerada pelo 25 de Abril e, após um curto período de novo estímulo, a Hehaber começa finalmente a perder o vigor, após dissidências internas que a levaram a sair da Rua Rosa Araújo, onde havia permanecido desde 1948, voltando para a Avenida Elias Garcia, onde se encontrava a Ohel Jacob, e companhando ambas a degradação destas instalações. Inicia-se um período de suspensão de actividades entre 1985 e 1998, aproximadamente.

Quanto à Ohel Jacob, esta havia começado o seu declínio após a década de 70, à medida que se foi tornando difícil o quórum mínimo (minian) para a celebração do rito religioso. “Com os anos, a primeira geração de judeus do leste que frequentava indiscriminadamente as duas sinagogas existentes em Lisboa, particularmente nas grandes festividades, foi desaparecendo e sendo substituída por uma geração já bastante integrada na CIL” [Marina Pignatelli]. A Ohel Jacob foi estando inevitavelmente limitada aos seus fundadores e alguns membros e poucos visitantes, que acabaram por desaparecer à medida que foram emigrando ou falecendo. Apenas um membro, Sapese Noymak, que nem era religioso, “fazia questão de ir todos os Sábados para lá, não fosse aparecer algum judeu a querer rezar e alguém tinha que lhe abrir a porta” (contava Salomão Marques), um gesto notável mantido durante anos, até à chegada de um grupo de marranos ávidos de “retorno”, em busca de si mesmos, dessas raízes cortadas por séculos de Inquisição, e que viriam a estabelecer um novo marco na história da Hehaber e da Ohel Jacob.

 

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Samuel Sorin > nascido na Polónia a 15 de Dezembro de 1894 e falecido em Março de 1979, nos Estados Unidos, de nacionalidade americana e comerciante de profissão.
Aron Katzan > Engenheiro civil, de origem polaca, nascido nos Açores em 10 de Julho de 1936 e falecido em 11 de Novembro de 2013.
Belmonte > É a única comunidade peninsular herdeira legítima da antiga presença histórica dos judeus sefarditas.
Durante toda a época da inquisição, conseguiu preservar muitos dos ritos, orações e relações sociais. Apesar da pressão para a diluição na sociedade católica portuguesa, muitos dos belmontenses cristãos-novos continuaram a casar-se apenas entre si durante séculos.
In Rede de Judiarias de Portugal

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Ohel Jacob
Sinagoga de rito Progressista, única askenazi em Portugal, fundada em 1934. Membro Afiliado da EUPJ/WUPJ (European Union Of Progressive Judaism / World Union Of Progressive Judaism) desde Abril de 2016.