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História da Hehaver-Ohel Jacob | Parte V

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Conclusão

Ohel Jacob e os B'nei Anussim

“Pode-se dizer que em Lisboa, estes bneianussim aglomeram um conjunto de pessoas que para além de reduzido, também é bastante heterogéneo. Há por um lado aqueles que são efectivamente marranos ou seus descendentes de segunda ou terceira geração, portanto, filhos ou netos de indivíduos que preservaram traços identitários judaicos misturados com outros traços assimilados de costumes não-judeus e que vieram para a cidade. E há outros indivíduos que são de famílias já de há muitas gerações nascidas em Lisboa, mas que encontraram por acaso ou fazendo buscas nesse sentido, as suas raízes judaicas que, apesar de poderem até ser muito recuadas em termos geracionais, são fortemente sentidas e apropriadas em termos identitários. A par destes anussim, há ainda o grupo de indivíduos que busca a conversão por uma intensa afinidade, para muitos inclusivamente inexplicável, mas que não deixa de ser genuína e espontânea, simplesmente por se reverem na religião e tradições da cultura judaica, como resultado de uma busca pessoal de sentido e de encontro espiritual ao nível religioso, ético, etc. Finalmente, há aqueles que se consideram judeus mas que se vêem frustrados por não serem considerados pela ortodoxia por não serem filhos de mãe judia nem terem sido convertidos de acordo com os ditames conformes à Lei judaica. Entre estes encontram-se filhos de pai judeu e mãe não-judia e os netos de judeus, por exemplo, ou por se filiarem numa ortodoxia judaica distinta, isto é, pertencem a movimentos judaicos distintos (reformistas, conservadores, liberais, ultra-ortodoxos ou laicos).

(…) Estes indivíduos deparam-se com três alternativas possíveis. Ou desistem, pois não sentem necessidade de aprofundar essa sua auto-percepção como judeus e só muito esporadicamente a assumem; ou se integram na CIL, seguindo o processo de re-iniciação e conversão dentro dos moldes lá propostos, o que envolve geralmente um catecismo e rituais de passagem a vários níveis bastante rigorosos, complexos e morosos, podendo ou não passar a frequentar a sinagoga Shaaré Tikvá (de rito ortodoxo sefardita de tradição de Leão e Castela, com alguns cantos askenazi misturados), com a regularidade que cada um desejar; ou a terceira via é procurar a única sinagoga alternativa a funcionar na cidade, a Ohel Jacob, onde o rito sempre foi de cariz essencialmente askenazi (…).” [Marina Pignatelli]

Aron Katzan havia tido sempre dificuldade em entender que estes filhos dos criptojudeus “tendo ascendência judaica e vontade de regressar à fé dos seus antepassados não seja mais bem acolhida” pela ortodoxia sefardita.

Talvez porque o povo judeu, considerado um dos mais sofredores da história da humanidade, “talvez a raça mais obstinada e resistente que jamais o mundo viu [Basílio Teles]” e, por isso mesmo, talvez obstinada entre si mesma, adubada por contextos históricos que a divide em sefarditas, askenazis e marranos, e ainda entre movimentos judaicos distintos, como que irmãos de personalidades tão incompatíveis; talvez pela estigmatização destes askenazis no período nazi, em Portugal, tornados os bodes expiatórios dos males da Nação, à semelhança dos marranos na época do Santo Ofício; talvez porque semelhantes sofrimentos geram semelhantes afinidades, e estes polacos sensibilizados por outras heranças abraçaram os anussim numa outra perspectiva, já desde o tempo da dupla Barros Basto e Schwarz (um “marrano” e um “polaco”); talvez por tudo isso estaria destinada esta Sinagoga a cumprir o legado do seu nome, “Tenda de Jacob”, mantendo as suas portas abertas a quem venha por bem ou pretenda simplesmente “regressar” – à imagem desse homem controverso, injusto e injustiçado, enganador e enganado, que tudo ganhou e tudo perdeu, que buscou sonhos e voltou para se reencontrar com o passado; Jacob, de quem D’us nunca desistiu, porque após o mal vencido, um simples homem pode tornar-se Israel.

De raízes ortodoxas, coração askenazi e agora rito progressista, a Ohel Jacob constitui a tenda de todos para todos.

Hehaver/Ohel Jacob

Julho 2016

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MA TOVU, por Rachel Hyman

MA TOVU

Quão boas são as tuas tendas, ó Jacó; tuas moradas, ó Israel!

Bibliografia

Abrami, Rabino Leo “The Anussim of Portugal” www.kulanu.org
Irwin, M. Berg “The Rebirth in Portugal” www.kulano.org
“Sinagoga Ohel Jacob” www.wikipedia.pt
“Sinagoga Renasce em Lisboa” www.expresso.pt
Corrêa, Emílio Manuel da Silva “Judaísmo E Judeus na Legislação Portuguesa” – 2012
Chalante, Susana “O Discurso de Estado Salazarista Perante o «Indesejável»” – 2011
Sanches, António Ribeiro “Cristãos Novos e Cristãos Velhos em Portugal” – 1748
Associação de Juventude Israelita HEHAVER “Homenagem” – 30.11.2014
Pignatelli, Marina “Os Judeus Askenazi de Lisboa: Contactos Culturais Durante a Recongregação de Uma Comunidade” – 2012
“O Capitão Barros Basto Escondia um Segredo” www.publico.pt
Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura
Souto, José Correia “Dicionário de História de Portugal”
Saraiva, José Hermano “História Concisa de Portugal”
“Comunidade Judaica Masorti Beit Israel” www.masorti.eu
Ohel Jacob
Sinagoga de rito Progressista, única askenazi em Portugal, fundada em 1934. Membro Afiliado da EUPJ/WUPJ (European Union Of Progressive Judaism / World Union Of Progressive Judaism) desde Abril de 2016.