Parashá da Semana | Shemot

  |   Institucional, Português, Judaísmo

ÊXODO 1:1−6:1
HAFTARÁ (LEITURA DOS PROFETAS), DE ACORDO COM O…
RITO SEFARADI: IEREMIÁHU (JEREMIAS): 1:1-2:3
RITO ASHKENAZI: IESHAIÁHU (ISAÍAS): 27:6-28:13, 29:22-23

E Pluribus Unum

 

Todos conhecem o selo dos Estados Unidos da América, com a sua severa águia de cabeça branca segurando no bico uma faixa com o lema “E Pluribus Unum” (A Partir de Muitos, Um). O que menos gente sabe é que este desenho é o resultado de um longo processo de escolha onde muitas alternativas foram apreciadas, sendo que a primeira delas – apresentada por Benjamin Franklin, um dos “founding fathers” (pais fundadores) dos EUA – era uma cena do livro de Shemot / Exodus da Torá, cuja leitura começamos nesta semana.

 

A cena proposta por Franklin mostra Moisés e os israelitas na margem do mar enquanto o Faraó e seus soldados se afogam. No dístico em torno do desenho se lê: “Rebellion to Tyrants is Obedience to God” (Rebelião Contra os Tiranos Equivale a Obedeciência Divina).

 

Nem Benjamin Franklin nem nenhum dos “pais fundadores” era judeu. Contudo, conforme esta proposta de selo demonstra, a inspiração deles para a luta contra a opressão da Inglaterra às colónias norte americanas derivava directamente da luta dos hebreus contra o Faraó.

 

Porque, na verdade, a saga de Moisés contra o Faraó e seu brado “deixe meu povo ir!” simbolizam a luta dos oprimidos contra a opressão para uma considerável parcela da população do planeta. O relato que começamos a ler nesta semana é parte inalienável da herança cultural da humanidade.

 

Curiosamente, o livro de Shemot / Exodus introduz antes da história em si uma lista com os nomes dos filhos de Jacó, cujos descendentes foram escravizados. É esta lista que inclui tanto os  filhos que desceram com Jacó ao Egipto, como José que já estava lá, que dá nome hebraico ao livro (“shemot” significa “nomes”).

 

O entendimento da história da saída do Egipto não requer a citação desta lista. Ela parece fora de lugar, mal colocada. Os filhos de Jacó foram importantes no livro anterior, em Bereshit / Genesis. Já em Shemot / Exodus, o primeiro plano é ocupado totalmente por Moisés contracenando com um pequeno grupo de personagens. As tribos de Israel ocupam o papel de figurantes que raramente saem do fundo para a frente do palco.

 

Contudo é em nome delas, das tribos hebreias, que Moisés e os demais personagens da história agem. E talvez seja por isso que a lista de nomes das tribos acaba por ganhar o mérito de abrir o livro com a história que se tornou o emblema mundial da luta pela liberdade.

 

A lista nos faz recordar que um povo é composto por diversos indivíduos diferentes. Que um grupo de pessoas nunca pode ser considerada como uma massa amorfa onde as personalidades são achatadas e onde se espera que todos pensem, ajam e reajam da mesma forma.

 

O êxodo do Egipto foi uma revolução contra o poder opressor de um governo centralizador e esclavagista. E foi uma revolução sublime porque ela manteve as diferenças dentro do povo que libertou. Uma revolução que acabou com a opressão externa sem exigir como contrapartida a uniformidade dos libertados.

 

A lista de tribos no início de Shemot / Êxodo nos lembra que não há valor algum em lutar contra uma escravidão para impor uma outra, onde os dissidentes são silenciados e exterminados. Que a beleza de um povo consiste na sua diversidade. Que num grupo de indivíduos cada um tem um nome, uma vida singular, um conjunto de características, de sentimentos e de visões. E que revolução alguma tem valor se tentar apagar ou desqualificar as dissidências.

 

Noutras palavras: à luz de Shemot, as elegias laudatórias feitas no recente (e um tanto tardio) falecimento de Fidel Castro são inteiramente descabidas.

 

Os founding fathers dos EUA decidiram que “E Pluribus Unum” representaria melhor a sua revolução do que “Rebellion to Tyrans is God Obedience”. Não há muita dúvida que a segunda formulação emerge directamente do livro de Êxodo, mas, conforme o nome hebraico do livro atesta, a primeira está igualmente contida nele.

 

Shabat Shalom

Raul Cesar Gottlieb

 

 

Fonte arirj.com.br

 

Ohel Jacob
Sinagoga de rito Progressista, única askenazi em Portugal, fundada em 1934. Membro Afiliado da EUPJ/WUPJ (European Union Of Progressive Judaism / World Union Of Progressive Judaism) desde Abril de 2016.